É possível aceitar e viver bem com uma doença terminal?



Sou uma pessoa muito positiva, muito alegre e de bem com a vida, não vou deixar que esta doença me tire isso!”, palavras de uma senhora que acompanhei com cancro nos intestinos. Foi no meu primeiro ano de prática clínica e o primeiro caso de contacto com a morte de uma paciente.


Que senhora mais cheia de vida! Nos seus cinquentas, muito divertida, bem-apresentada, sempre alegre, com muita energia, entusiasmo e um grande desejo de viver. Os seus olhos brilhavam ao falar do seu neto e das suas aventuras em comum, era, igualmente, quando caía uma lágrima ao pensar que não o iria ver crescer. Os médicos deram-lhe pouco tempo de vida e um dia apareceu abatida (nunca a tinha visto assim), estava, dizia ela, a perder a esperança.


Essa sessão foi especial, pois, também eu por dentro, me entristeci e me compadeci, mas perguntei pela mulher cheia de vida que eu tinha conhecido, pelos seus sonhos ainda por concretizar, pelo neto e as suas brincadeiras e a esperança foi reaparecendo dentro de si: “Não posso deixar que a doença me tire a felicidade”, (…), “Quero, ainda, realizar alguns sonhos e vou lutar por isso”. Falou de como gostava de viajar, ir até à praia, brincar com o neto e como queria, ainda, fazer todas essas coisas. Mais, ela percebeu que tinha de aceitar a sua condição de finitude da vida. Mas quem não tem?


Todos nós sabemos que um dia vamos dar o nosso último suspiro, faz parte da nossa condição humana, contudo ninguém sabe a hora da sua morte e, na verdade, não pensamos muito nesse assunto. Quando alguém sabe que a sua hora se aproxima, seja pela idade ou pela doença, o coração aperta, vem a angústia (o desespero talvez), pois, para além de lidar com o desconhecido (não sei o que está do outro lado à minha espera), também tenho de me despedir de quem mais amo (por vezes de quem precisa muito de mim, ainda) e isto é extremamente doloroso. Foi o que aconteceu com esta senhora, ela confrontou-se com tudo isso, quando, efetivamente, compreendeu que o seu fim estava para muito breve.


Aceitar a nossa morte não deve ser uma decisão fácil de ser tomada. Essa senhora naquele momento tomou essa decisão: aceitar a morte que chegava e aproveitar ao máximo cada segundo que lhe restava. Muitas vezes somos confrontados com situações limite, podem ser mais leves ou mais pesadas, mais ou menos dramáticas, mas todas são difíceis de aceitar. Gastamos muito tempo a lutar contra realidades e situações que não têm solução. Perdemos tempo e energia a remar contra a maré, a querer controlar as pessoas, as circunstâncias e o mundo, com o intuito de tudo corresponder à nossa vontade. Contudo, nem sempre a nossa vontade irá prevalecer e teremos de aceitar a realidade.


Aceitar é diferente de conformar. Aceitar é arregaçar as mangas e fazer o que está ao nosso alcance, com um sorriso no rosto (ainda que bem doloroso e regado de lágrimas). Conformar é resignar, é parar e limitar-se a ser levado pelas condições, sem assumir a sua vida nas mãos.

Naquela sessão, a senhora saiu com um grande sorriso na alma que me contagiou. Na semana seguinte, nova sessão e ela sem aparecer. Ligo e atende o seu filho que me diz: “Faleceu ontem!” ... enorme silêncio! O choque e o meu grande confronto com a morte. Nuns breves segundos revoltei-me e só me perguntava, mas porquê? Logo esta senhora cheia de vida e amor para dar! Mas parei e refleti que, com ela, aprendi a não desperdiçar um segundo da minha vida e a tentar viver o mais feliz possível, pois a vida é um dom que nos foi dado e nunca saberemos quando nos será tirado.


Aprendi que a esperança não pode morrer em nós, abafada no nosso desespero e receio do que está para vir. Precisamos enfrentar todos os nossos medos e lutar com essas sombras que nos envolvem o coração e nos aprisionam num mundo sem cor, escuro, frio, triste, onde cresce o sentimento de solidão, abandono e dor. Não podemos deixar-nos morrer antes mesmo de a morte chegar. Necessitamos viver e dar o nosso máximo até ao último suspiro. Encontrar forças onde não sabíamos existir; sonhar e não deixar de o fazer; ter sempre uma meta a atingir (diariamente ou não); ser feliz com o pouco que temos e aproveitarmos o hoje, pois amanhã talvez teremos de ser felizes com menos; confiar que Deus não nos abandona, por maior que seja a dor, se há alguém que não sai do seu lugar, é Ele!


Ninguém nos pode roubar a nossa liberdade, mesmo à beira da morte, sou livre para ser feliz e viver por inteira até ao meu encontro com o Pai.


Marta Faustino

24 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
 

+351 910884310

©2020 por Marta Faustino - Psicóloga clínica.