Como sei que já perdoei?

O perdão é dos conceitos mais complexos e difíceis de explicar. Contudo vale a pena refletir alguns pontos importantes, pois embora se saiba a sua importância, surgem muitas dúvidas na hora do perdão.


Perdoar tem implicações psicológicas, isto é, há alterações, processos internos que nos levam, ou não, a conseguir dar o perdão. Existem determinadas doenças, que chamamos psicossomáticas, para as quais a medicina não encontra justificação que estão relacionadas com as nossas emoções. 


Neste sentido, dar o perdão pode ser um grande desbloqueio de uma situação dessas situações.

Falando do conceito de perdão, podemos falar sobre três aspectos relacionados: memória da ofensa, reconciliação e justiça. Especificarei de seguida cada um.


Qual a relação entre perdão e memória? É-lhe familiar expressões como esta "Já perdoei, mas não me consigo esquecer". As pessoas pensam, erradamente, que é necessário esquecer o acontecimento para que o perdão seja que é necessário esquecer o acontecimento para que o perdão seja genuíno. "Perdoar significa recordar o passado para o assimilar e o tornar parte da história pessoal" (Giulanini, 2005), isto é, quando nos recordamos do episódio que nos causou tamanha dor, mas já sem sentir essa dor. Perdoar não significa, portanto, esquecer o que aconteceu, mas sim que essa memória já não me faz sentir dor, raiva ou rancor. O acontecimento ao ser recordado é que vai conduzir a cura da minha memória e, portanto, a perdão.


Quanto à reconciliação podemos recordar frases assim "Perdoei, mas nunca mais volto a ser o mesmo com ela". A reconciliação seria uma excelente consequência do perdão, no entanto, nem sempre ela é possível. O perdão não implica que a pessoa que ofendeu esteja presente ou que faça parte da sua vida no momento do perdão. Isto justifica o perdão para falecidos ou para com pessoas com quem nunca conviveram ou não conheceram (casos de abusos/violências). No entanto, a reconciliação implica reciprocidade, isto é, a vitima pode perdoar e querer a reconciliação, mas o agressor não pretender essa reconciliação, logo a mesma não é possível. Mas não invalida o perdão.

De salientar que uma reconciliação também não significa uma relação idêntica à anterior, antes da ofensa. Isto é uma utopia, pois a relação irá ser novamente reconstruída

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Finalmente sobre o perdão e justiça, será que ao perdoar não posso deixar que seja feita justiça (por exemplo o agressor ir preso).

Relembremos palavras do Papa João Paulo II em 2002 "orienta-se antes para aquela plenitude de justiça conducente à tranquilidade na ordem, que é muito mais do que uma frágil e passageira cessação das hostilidades, trata-se, pelo contrário, da cura em profundidade das feridas que estão a sangrar nas almas. É em virtude de uma tal cura que tanto a justiça como o perdão são essenciais". Portanto, a justiça deve ser feita independentemente do perdão dado. Foi o próprio Papa João Paulo II que foi à prisão perdoar o homem que o alvejou, mas não o retirou da prisão e isto não diminuiu o seu perdão.


Como diz Annalisa Giulianini, escritora do livro "Perdão: implicações psicológicas", "o perdão corresponde a um ato de benevolência gratuita que, de modo algum, implica a renuncia à aplicação da justiça".


Concluindo, perdoar é muito mais do que desculpar, é aceitar o acontecimento, relembra-lo para o curar, deixar que seja feita a justiça necessária e seguir a vida tentando, na medida do possível, uma reconciliação.

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Marta Faustino

 

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©2020 por Marta Faustino - Psicóloga clínica.