Criar, viver e ser: a chave para a felicidade



Encerramos este tema com uma reflexão sobre a relação entre valores e felicidade, tendo como base a logoterapia do psiquiatra Viktor Frankl.


A pessoa vive a sua vida orientada pela sua consciência, que Frankl designa como órgão do sentido. E o que move o homem, o que lhe dá ânimo é o sentido da sua vida e esse é o caminho da felicidade. Neste percurso, o homem depara-se com os valores, que se apresentam como possibilidades na vida do homem. Como é que isto se concretiza?


O homem vive três experiências básicas: o livre-arbítrio, que permite fazer escolhas entre diversas possibilidades; os valores que orientam as decisões, escolhemos em função disso; e a inconstância das situações, pois a realidade está sempre a mudar.


Entretanto Frankl refere três categorias de valores: criativos, vivenciais e atitudinais e é a atitude do homem perante estes valores que vai gerando o sentido da sua vida ou ausência dele. Vejamos cada um de forma particular.


1) Valores Criativos: criar alguma coisa no mundo, uma obra, um trabalho. Qual a minha marca, o que deixo no mundo? Outra Logoterapeuta, Elisabeth Lukas, refere que aqui entra o “homo faber”, capacidade do homem para trabalhar. Os valores criativos não se referem a realizar grandes obras na humanidade, mas sim o empenho, amor e dedicação ao simples do quotidiano. Frankl tem uma frase que exemplifica muito bem “Há uma grande diferença entre quem lava a loiça e quem lava a loiça e seca o lava loiça”. Estar com o outro superficialmente ou em profundidade faz toda a diferença na vida do outro, e em mim também.


Exemplificando, no trabalho eu posso fazer simplesmente a minha função ou dedicar-me e dar o meu melhor nessa função. Isto não significa que sou insubstituível, pois não sou e, também preciso de me conscientizar disso, mas enquanto eu estou nessa função eu dou o meu melhor, dou a minha vida nesse trabalho, sem dúvida que estarei a deixar a minha marca. Nós percebemos bem a diferença de ser atendido por alguém, numa loja ou departamento público, que nos recebe com um sorriso acolhedor, escuta, é delicada e educada ou alguém rude, mal-encarado, que não nos olha nos olhos, não sorri e despacha-nos. Pequenas atitudes de simpatia e acolhimento, geram sentimentos de bem-estar, compreensão, aceitação.


2) Valores vivenciais: receber algo do mundo, Lukas menciona a capacidade de amar, disposição para a contemplação, isto é o “homo amans”. Podemos desfrutar da contemplação da natureza, da arte, de um acontecimento ou da vivência de laços afetivos profundos e marcantes que nos desinstalam. Aqui o cerne é que essa vivência marca-nos de tal forma, toca tão profundamente, ao ponto de modificar o meu ser. Podemos pensar numa amizade tão íntima que caminha connosco ao longo da vida, um relacionamento conjugal de grande união e cumplicidade, um filho que nos desinstala. De notar que estas vivências não apontam para a posse, mas são sempre de liberdade e responsabilidade.


Esta vivência pode, como referi, da mesma forma ser referente a algo, como um maravilhamento perante a imensidão do mar, ou a beleza deslumbrante de uma cascata, ou mesmo, um momento de oração/adoração de profunda intimidade com Deus, isto gera um momento de transcendência, ou seja, onde temos uma perceção ampla de tudo e parece que passamos a ver a vida com outro olhar, e, inclusive, reorganizamos as nossas prioridades.


3) Valores atitudinais: posicionar-se perante os sofrimentos inevitáveis. Como refere Lukas é a capacidade de sofrer, uma disposição para a paixão, “homo patiens”. Este é o que mais custa compreender, pois Frankl refere-se às situações limite, onde a vida fica restrita a poucas possibilidades de escolha e, aqui, o homem é chamado a encontrar o sentido da vida perante a escolha de uma atitude. Frankl resume estes valores na seguinte frase “Não temos liberdade DE, mas temos liberdade PARA.” Nós não podemos escolher as situações, mas a nossa atitude perante elas, sim.


Por exemplo, nós não escolhemos a família onde nascemos, ou o chefe incompreensivo, um acidente limitante, uma morte, entre outros, mas temos liberdade para escolher como nos posicionamos perante essas pessoas e acontecimentos. Portanto, perante circunstâncias limite da nossa vida temos a oportunidade de rever as nossas crenças, prioridades, o que é essencial e o que é efémero, o que não se pode largar e o que é necessário desprender.


Concluindo, o homem realiza-se quando cria algo, mas senão o poder fazer, ele também se realiza vivendo, desfrutando da vida. Contudo, se essa experiência, também, lhe é negada, existe sempre a última categoria de valores, ou seja o homem posiciona-se perante o sofrimento inevitável, aceita essa realidade e vive-a o melhor que pode.


Marta Faustino

18 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
 

+351 910884310

©2020 por Marta Faustino - Psicóloga clínica.