A alma existe mesmo?



Num mundo tão banalizado, erotizado, sexualizado e tão pouco atento aos sentidos do coração e da alma, acabamos por viver só o aqui e agora, o momento presente, com tudo o que ele nos dá e privamos a nossa alma do seu alimento, acabando por vivermos pela metade e com uma sensação de vazio interior, de incompletude, de que nos escapa algo, que nos falta algo. Passamos a vida a tentar preencher esse vazio com tantas coisas banais, supérfluas, em lugares exóticos ou esotéricos, com matéria ou material, com divindades ou entendidas que em nada nos saciam, como Santo Agostinho nos deixou na sua bela escrita de amor ‘Tarde te amei’:


Tu estavas dentro de mim e eu fora… Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo

Vivemos numa sociedade que separa a alma do corpo, fé e vida, igreja e sociedade, Deus e o mundo. Neste sentido, deixámos as nossas tradições, arrancamos com os nossos princípios e deixámo-nos seguir pela onda generalizada do relativismo, egoísmo, consumismo, hedonismo e tantos outros ismos que nos separaram do essencial. Esta vivência tem como base uma antropologia equivocada que se enraizou no nosso meio e que nos diz que a alma é algo abstrato em nós e pode ter várias origens, ou não existir de todo e, portanto, somos somente psique. Já a carne é o que vemos, sentimos e possuímos e precisamos de a ouvir, cuidar e satisfazer, é ela o centro da nossa vida, pois é a parte visível. Neste sentido, não interessa o espírito e o que ele porta em embrião (melhor dizendo, o que ele grita e anseia por colocar para render), mas antes importa os impulsos da vontade, a minha liberdade para desfrutar dos prazeres momentâneos. Para corroborar isto, existem vários psicólogos, psiquiatras e correntes psicológicas e filosóficas, no entanto, a antropologia cristã diz-nos o oposto, e a Igreja, na pessoa de diversos padres, papas e santos, tem-nos mostrado a beleza de sermos um todo: corpo, psique e espírito, onde um não existe sem o outro, não são dimensões separadas, mas somos a sua soma.


É necessário que haja o equilíbrio entre a idolatria do corpo, vaidade, egoísmo e toda essa dimensão cultural e consumista do corpo e seus prazeres associados, com a espiritualidade, por vezes desencarnada e vivida, somente, na ilusão de um mundo angelical e distante que não corresponde à realidade onde estamos inseridos.


Deus criou-nos e deu-nos um corpo bom, e que necessita ser cuidado, amado, respeitado e resguardado de toda a impureza que o desvirtua da origem e fundamento de Deus nele. Entretanto, não podemos descurar o “sopro da vida” que Deus nos deu, o nosso espírito e alimentá-lo.


A vida não nos indica, desde logo, esse caminho da espiritualidade e da intimidade com o nosso Criador, o que nos afasta de uma parte fundamental em nós. Com isto, só mais tarde, na adolescência, ou vida adulta, é que entramos em contacto com essa realidade e percebemos o sentido que ela faz. Quando isso acontece surge a descoberta de um novo que nos era desconhecido, mas não estranho (pois já faz parte de nós), e parece que tudo se encaixa de uma forma diferente, bela e perfeita, toda a vida ganha um novo significado e a apalavra vocação torna-se a concretização da essência que possuímos, mas desconhecíamos.


Ao cultivarmos a espiritualidade passamos a ver o corpo com outro olhar, o de cuidar e de nos servir para a missão a desempenhar e já não o contrário, portanto eu não vivo para satisfazer as necessidades do meu corpo e descubro que, afinal, sou dono de mim e consigo dominar as minhas paixões, torno-me “poderoso”, pois sinto que já não sou escravo de mim e dos meus impulsos, mas possuo-me e vivo para um bem maior e sinto essa proteção, consolo e direção muito nítida. Desta forma, atingimos o equilíbrio entre o corpo e as suas paixões e o domínio de mim e a vida no espírito.


Termino com mais um trecho dessa bela música que Santo Agostinho deixou escrita:

Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!”

Marta Faustino

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